O Tribunal do Júri de Cuiabá condenou Carlos Alberto Gomes Bezerra, o Carlinhos Bezerra a 36 anos de cadeia, em regime fechado, pelo duplo homicídio qualificado da ex-namorada Thays Machado e do atual companheiro dela, Willian César Moreno. O julgamento, presidido pela juíza Mônica Perri no Fórum da Capital nesta sexta-feira (31), encerrou um dos casos de feminicídio e perseguição (stalking) de maior repercussão em Mato Grosso.

O réu, filho do ex-governador e ex-deputado federal Carlos Bezerra, foi julgado e apenado pelo Conselho de Sentença, que reconheceu a brutalidade e a premeditação dos crimes cometidos em 18 de janeiro de 2023. 

O Conselho de Sentença reconheceu a prática de homicídio qualificado contra Thays Machado por motivo torpe, emprego de meio cruel, recurso que dificultou a defesa da vítima e feminicídio. Em relação a Willian César Moreno, o réu foi condenado por homicídio qualificado por motivo torpe, emprego de meio cruel e recurso que dificultou a defesa da vítima.

Na sentença, a magistrada negou ao condenado o direito de recorrer em liberdade e determinou a manutenção da prisão para execução imediata da pena, com fundamento no Tema 1.068 da repercussão geral do Supremo Tribunal Federal (STF). Subsidiariamente, também manteve a prisão para garantia da ordem pública.

Os crimes foram enquadrados nos artigos 121, § 2º, incisos I, III, IV e VI, c/c § 2º-A, inciso I, do Código Penal, em relação à vítima Thays Machado, e no artigo 121, § 2º, incisos I, III e IV, do Código Penal, em relação à vítima Willian César Moreno, com incidência da Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº 8.072/90), alterada pela Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), na forma do artigo 70 do Código Penal.

Durante a sessão do júri, a acusação sustentada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) desmontou as teses defensivas do réu, que alegou ter atirado por "medo de apanhar" e por ter sido provocado por Willian. As provas periciais e os depoimentos das testemunhas comprovaram a existência de uma estrutura obsessiva de monitoramento.

                                                                                                                                            Reprodução

Thays Machado e Willian Cesar Moreno foram mortos em janeiro de 2023.

Ficou demonstrado que Carlinhos Bezerra efetuou 914 ligações telefônicas para a vítima nos 18 dias anteriores ao crime, mantinha rastreadores por GPS, registrou 71 relatórios de geolocalização e anotava em cadernos os horários, itinerários e contatos telefônicos de Thays.

Provas de perseguição e dinâmica do ataque

O depoimento do delegado Marcel Gomes de Oliveira, primeira testemunha ouvida no julgamento e responsável pelas investigações da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) à época, foi decisivo para demonstrar a premeditação.

O delegado detalhou a apreensão feita na casa do acusado, onde funcionava um escritório voltado para o rastreamento da vítima. No local, a polícia encontrou anotações manuscritas sobre os horários de saída de Thays, visitas a familiares, consultas médicas, pet shops e até o colégio da filha da vítima, além de ordens intimidadoras enviadas por aplicativo para que ela atendesse chamadas de vídeo.

                                                                                                                                           Reprodução

Momento da prisão do réu, no mesmo dia do crime

Na tarde do crime, Thays e Willian estavam na calçada em frente ao Edifício Solar Monet, no bairro Consil, quando Carlinhos aproximou-se em um veículo Renault Kwid bege, engatou a ré e efetuou diversos disparos de arma de fogo de dentro do automóvel.

Thays foi atingida pelas costas e morreu no local. Willian tentou correr para se proteger, mas foi alvejado e caiu sem vida a cerca de 30 metros de distância. O acusado fugiu para uma fazenda da família em Campo Verde, onde foi preso em flagrante horas depois pela Polícia Civil portando a pistola calibre .380 utilizada na execução.

Manobras da defesa todas rejeitadas

Antes do início das oitivas, a defesa de Carlinhos Bezerra tentou pela segunda vez adiar a sessão alegando problemas de saúde do acusado e supostas irregularidades no isolamento de testemunhas.

Os requerimentos foram prontamente indeferidos pela juíza Mônica Perri, com base em laudos médicos da unidade prisional que atestaram a plena aptidão física e mental do réu para submeter-se ao julgamento popular.

                                                                                                                                         Reprodução

Foto: ReporterMT

Com o veredito condenatório proferido pelos jurados, a magistrada fixou a dosimetria da pena privativa de liberdade, considerando as circunstâncias judiciais desfavoráveis, a valoração negativa do cerco obsessivo e o emprego de recurso que impossibilitou a defesa das vítimas.

O crime

O assassinato de Thays Machado e Willian Moreno ocorreu em 18 de janeiro de 2023, em frente ao Edifício Solar Monet, no bairro Consil, em Cuiabá. O casal foi morto a tiros por Carlinhos Bezerra, filho do ex-governador e ex-deputado federal Carlos Bezerra (MDB).

Carlinhos manteve um relacionamento com Thays e não aceitava o fim da relação. As investigações apontaram que, antes do duplo homicídio, Carlinhos monitorava a ex-namorada e mantinha informações detalhadas sobre seus deslocamentos.

Ao todo, foram encontrados 71 registros de localização de lugares frequentados pela vítima. Ele fazia o download desses dados no celular e, posteriormente, os imprimia.

Além disso, os programas de monitoramento teriam sido instalados ainda durante o relacionamento. Thays já havia registrado boletim de ocorrência contra Carlinhos.