Com
foco no fortalecimento da agricultura familiar, da pesca artesanal e da
aquicultura familiar no âmbito do Programa Nacional de Alimentação Escolar
(PNAE), o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o Ministério da
Educação (MEC) e o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) deram início a uma
mobilização nacional para ampliar a presença do pescado nas refeições
oferecidas aos estudantes da rede pública brasileira. A iniciativa faz parte de
um Acordo de Cooperação Técnica firmado entre os três órgãos federais e
estabelece 2026 como o Ano do Pescado na Alimentação Escolar.
A
campanha faz parte de uma estratégia nacional voltada à ampliação do acesso de
estudantes a alimentos nutritivos, à valorização da produção local e ao
fortalecimento do desenvolvimento socioeconômico de comunidades pesqueiras e
aquícolas em todo o país. A ação também dialoga com o Programa Povos da
Pesca Artesanal, instituído pelo Decreto nº 11.626, de 2023, e está
alinhada às diretrizes do Plano Nacional da Pesca Artesanal, reforçando a
integração entre políticas públicas de alimentação escolar e desenvolvimento
produtivo sustentável.
Uma
pesquisa nacional realizada pelo FNDE, em parceria com o Ministério da Educação
(MEC) e o Ministério da Pesca e Aquicultura
(MPA), aponta o potencial de ampliação do pescado na alimentação
escolar pública brasileira. O levantamento ouviu 2.330 profissionais vinculados
ao Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), entre nutricionistas
responsáveis técnicos e merendeiras escolares de diferentes regiões do
país.
Os
dados revelam que a inclusão do pescado nas escolas públicas ainda possui
espaço para crescimento. Entre os nutricionistas responsáveis técnicos
entrevistados, 64% afirmaram que o alimento ainda não é ofertado nas unidades
escolares sob sua responsabilidade. Já entre as
merendeiras escolares, esse percentual foi de 46%, evidenciando diferenças
de percepção entre o planejamento técnico dos cardápios e a rotina
observada nas cozinhas das escolas.
Valor
nutricional
A
oferta de pescado na alimentação escolar é considerada uma estratégia relevante
para qualificar o valor nutricional das refeições servidas nas escolas
públicas. Rico em proteínas de alto valor biológico, ácidos graxos ômega-3,
vitaminas e minerais essenciais, o alimento contribui para o crescimento
saudável, o fortalecimento do sistema imunológico e o desenvolvimento cognitivo
de crianças e adolescentes.
Segundo a nutricionista Jéssica Levy, doutora pela Faculdade de Saúde Pública da USP e pós-doutora pelo Instituto de Pesca da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, o pescado reúne nutrientes estratégicos para essa fase da vida e pode impactar diretamente o aprendizado escolar.

Foto: arquivo cedido ao FNDE
“O
pescado tem um papel estratégico na alimentação escolar por reunir nutrientes
essenciais para o crescimento físico, o desenvolvimento cognitivo e a formação
de hábitos alimentares saudáveis desde a infância. Além de ser uma proteína de
alto valor biológico, fornece micronutrientes importantes como vitamina D,
vitamina B12, iodo, selênio, ferro e zinco, fundamentais em uma fase marcada
por intenso desenvolvimento físico e neurológico”, explica.
De
acordo com a especialista, entre os nutrientes com maior impacto no desempenho
escolar estão os ácidos graxos ômega-3 de cadeia longa, especialmente DHA e
EPA, associados à memória, à atenção, à aprendizagem e ao desenvolvimento
visual. “O DHA é componente estrutural das membranas neuronais e da retina.
Evidências científicas mostram que sua ingestão adequada está relacionada ao
melhor neurodesenvolvimento e ao desempenho cognitivo ao longo da
infância e adolescência”, afirma Jéssica.
Diversificação
alimentar e fortalecimento da economia local
Além
dos benefícios nutricionais, a inclusão do alimento
na alimentação escolar amplia possibilidades de comercialização para
pescadores artesanais e aquicultores familiares, além de contribuir para
sistemas alimentares mais sustentáveis e para a valorização das tradições
alimentares regionais.
Os
dados da pesquisa mostram predominância da tilápia entre as espécies utilizadas
na alimentação escolar. Entre os nutricionistas responsáveis técnicos, a
espécie registrou 778 citações, liderando com ampla vantagem sobre
sardinha (286), atum (102) e cação (83). Entre as merendeiras, a tilápia também
aparece em primeiro lugar, com seis citações, seguida por sardinha (3) e
pirarucu/pescada (1). Considerando os dois grupos analisados, a tilápia
concentra cerca de 62% das menções identificadas na pesquisa.
O
levantamento aponta ainda que o filé de peixe é a forma de aquisição mais
utilizada pelas redes de ensino. Entre os nutricionistas, o formato mapeou
1.031 citações, enquanto os produtos enlatados somaram 392 menções. Entre as
merendeiras, o filé também lidera, com nove registros, seguido por
enlatados (4) e isca de peixe (1). Os dados demonstram preferência por formatos
considerados mais práticos, seguros e adequados à alimentação escolar.
Para o pescador da Cooperativa de Pesca Artesanal (COOPERPESCA), Denir de Jesus Júnior, o fornecimento para a alimentação escolar reforça o compromisso da categoria com a qualidade do alimento e com a preservação das espécies. “Fornecer pescado para a alimentação escolar é muito importante porque estamos oferecendo um alimento saudável, fresco e sem alterações. Trabalhamos com responsabilidade, respeitando as leis ambientais e os períodos de defeso e piracema, garantindo a proteção das espécies e a continuidade da pesca na nossa região.”

Foto: arquivo cedido ao FNDE
Segundo
ele, é importante para os pescadores saberem que existe a oportunidade de
fornecer um produto pescado por eles com valor justo e com destino à
alimentação escolar. “Isso dá segurança para o trabalho e a certeza de que
estamos contribuindo com a alimentação saudável das crianças.”
Educação
alimentar
A iniciativa integra ações de Educação Alimentar e Nutricional voltadas à promoção de hábitos saudáveis desde a infância. No ambiente escolar, a oferta regular de pescado está associada à melhoria da qualidade global das refeições, ao aumento da densidade nutricional das dietas e ao fortalecimento da diversidade alimentar. Estudos indicam que crianças expostas a maior variedade de alimentos apresentam maior probabilidade de manter escolhas alimentares equilibradas ao longo da vida.
*Matéria originalmente
publicada no site do Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Educação.
