Aos 38 anos, Thiago Lima
Soares de Oliveira se tornou o primeiro aluno da Associação de Pais e Amigos
dos Excepcionais (Apae) de Colíder (650 km de Cuiabá) a conquistar um diploma
em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat).
Antes de chegar à
universidade, Thiago vendia geladinhos e pastéis pelas ruas para ajudar nas
despesas de casa. Foi durante esse período que passou a observar o trabalho de
engenheiros e arquitetos e despertou o interesse pela profissão.
- “Muitos tratam a gente
como incapaz e não dão oportunidade para provarmos que conseguimos”
A história ganha destaque
justamente na Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla,
celebrada na última semana de agosto. Para Thiago, sua trajetória mostra como o
acesso à educação, o acolhimento e a oportunidade podem abrir caminhos para
pessoas com deficiência.
Thiago nasceu com deficiência
intelectual e motora e teve paralisia infantil. Segundo a mãe, Elizabete
Oliveira Lima, desde os primeiros anos de vida ele precisou enfrentar
dificuldades para andar e falar.
“Muitos tratam a gente como incapaz e não dão oportunidade para provarmos que conseguimos. Apesar de ter a mobilidade reduzida, posso falar, graças a Deus, eu venci e realizei meu sonho. Sou arquiteto e urbanista”, ressaltou Thiago em entrevista ao MidiaNews.
Primeiros passos

Thiago e a mãe Elizabete Oliveira. Reprodução
Segundo Elizabete, foi com o
suporte da Apae que o filho iniciou uma trajetória que mudaria sua vida e a de
toda a família. Na época, Thiago morava com os avós maternos, que eram
responsáveis por levá-lo de bicicleta para as atividades da associação.
Na instituição, ele passou a
receber acompanhamento e tratamento. A rotina incluía atividades e atendimentos
que ajudaram no desenvolvimento da fala e da mobilidade.
“Meu pai levava ele de
bicicleta na Apae e, graças à Apae, o Thiago começou a andar, começou a falar
um pouco mais direito, porque a língua dele tinha problema. Ele começou a falar
um pouco melhor, começou a andar melhor”, relembrou a mãe.
Com o passar dos anos e a
conquista de mais independência, Thiago percebeu a necessidade de ajudar nas
despesas da família. Foi então que conversou com uma comerciante próxima de sua
casa e passou a ajudá-la na comercialização de geladinhos e pastéis.
“Meu sonho era ajudar minha vó
em casa”, contou.
Foi durante esse período que
conheceu os engenheiros Wagner Aparecido Cassiano e Fabio Luiz Amaral, além do
projetista e arquiteto Talles Mesquita. O contato com os profissionais foi
decisivo para que descobrisse uma nova possibilidade de carreira.
Encantado com o trabalho dos
profissionais, Thiago passou a observá-los enquanto desenhavam, conversavam e
desenvolviam projetos. Aos poucos, demonstrou interesse pela área e acabou
recebendo deles uma oportunidade para aprender.
“Eu, quando vendia pastel,
ficava olhando eles fazendo os trabalhos enquanto os outros estavam comendo e
comecei a me interessar. Aí eles perceberam e me ofereceram a oportunidade de
aprender”, contou.
Os profissionais compraram os
primeiros cadernos de Thiago e o auxiliaram na realização de um curso de
informática básica. A partir desse aprendizado, ele passou a utilizar programas
de computador para fazer desenhos e desenvolver os próprios projetos.
Entre os trabalhos realizados
durante esse período está um projeto para a Igreja Matriz de Colíder.
- “Eu quero ajudar a melhorar
a cidade, deixar a cidade mais bonita”
A experiência despertou em
Thiago o desejo de transformar o interesse em profissão. Em 2020, ele ingressou
na primeira turma do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unemat, em Colíder.
Segundo ele, a escolha também
foi motivada pelo desejo de contribuir para a transformação do município.
“Eu quero ajudar a melhorar a
cidade, deixar a cidade mais bonita”, afirmou.
Adaptação

Thiago durante a realização dos primeiros projetos. Reprodução
O caminho até a formatura, no
entanto, trouxe novos desafios. Por se tratar da primeira turma do curso no
município, Thiago precisou contar com adaptações na estrutura da universidade
para atender às suas necessidades.
“Não tinha na época, mas tudo
foi sendo adaptado conforme a minha necessidade”, afirmou.
Além das adaptações, o apoio
dos colegas, professores e funcionários foi fundamental durante a graduação.
Thiago conta que a convivência diária criou uma rede de apoio que fez diferença
ao longo dos anos.
“Eu ajudava os amigos e os
amigos me ajudavam. A convivência era muito grande. Passava mais tempo na
faculdade do que em casa”, contou.
Segundo ele, as disciplinas e
atividades eram as mesmas dos demais estudantes, mas o suporte recebido foi
importante para que conseguisse acompanhar o curso.
Não foi fácil. O peso não foi
o canudo, e sim a luta e a conquista, porque muitos tratam a gente como incapaz
e não dão oportunidade para provar que conseguimos”, afirmou.
Orgulho
Para Elizabete, acompanhar o
filho até a formatura representou uma conquista que vai além do diploma. Ela
diz que o orgulho também está relacionado a tudo o que Thiago precisou
enfrentar desde a infância.
“Eu fico muito feliz vendo ele
receber o diploma dele, na colação de grau e na formatura. Agradeço todos os
professores da Unemat e a Apae de Colíder, porque eles fizeram tudo pelo
Thiago”, afirmou.
A conquista do diploma, no
entanto, não encerrou a caminhada. Thiago atualmente faz estágio no setor de
projetos da Prefeitura de Colíder, justamente na área em que decidiu construir
a carreira.
Ele participa da elaboração de
projetos para unidades de saúde e de outras iniciativas urbanas que, segundo
ele, têm como objetivo “melhorar a cidade”.
Antes mesmo da formatura,
Thiago já buscava ampliar os conhecimentos. O novo arquiteto afirma ter
aproximadamente 45 certificados de cursos realizados ao longo dos anos.
Agora, aguarda a regularização
da documentação junto ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) para poder
exercer plenamente a profissão.
De volta à Apae
Mesmo depois da formatura, Thiago continua frequentando a Apae, onde ainda realiza tratamentos. Mas permanecer na instituição também tem outro significado: ele quer que a própria trajetória sirva de incentivo para outras pessoas com deficiência.

“Mesmo me formando, eu ainda
sou aluno da Apae. Não quis sair por causa do tratamento e porque quero
incentivar as pessoas a conquistarem seus sonhos, mesmo com dificuldade”,
explicou.
Para Thiago, a inclusão começa
quando as pessoas têm a oportunidade de descobrir suas habilidades e mostrar o
que são capazes de fazer.
“Sabendo que sou motivo de
orgulho para cada pessoa com necessidade especial e que sirvo de inspiração
para elas, a maior responsabilidade é ser uma referência e mostrar que todos
são capazes. Só precisam de uma oportunidade. Que cada pessoa tire um tempo
para visitar a Apae e veja que, apesar das dificuldades, todos são capazes”,
afirmou.

