A China intensifica uma estratégia governamental para reduzir a dependência das compras externas de commodities agrícolas, com foco direto na soja e na carne bovina, setores em que o agronegócio brasileiro lidera o fornecimento mundial. O plano asiático combina investimentos em biotecnologia, alteração no manejo nutricional dos rebanhos e expansão de plantios em outros continentes.


O movimento reflete o modelo de planejamento de longo prazo adotado por Pequim em setores industriais. Da mesma forma que o país assumiu a liderança global na fabricação de veículos elétricos e painéis de energia solar, o governo chinês estabelece metas para ampliar a autossuficiência e garantir a segurança alimentar da população.

No setor de proteína animal, a meta chinesa prevê suprir até metade da demanda interna com carne cultivada em laboratório até 2050. A tecnologia consiste no cultivo de células animais em ambiente industrial controlado, gerando produto próprio para consumo sem necessidade de pecuária extensiva.

Atualmente, a China responde por 24% de toda a carne bovina comercializada no planeta, volume correspondente a 32% do consumo doméstico chinês. Os frigoríficos brasileiros figuram como os maiores fornecedores desse mercado.

A transição gradual para fontes alternativas de proteína tem como objetivo diminuir a exposição do país às oscilações e restrições do mercado externo nas próximas décadas. A diminuição nas importações de grãos concentra-se na revisão das fórmulas de alimentação animal. O governo chinês determinou uma redução na proporção de farelo de soja nas rações, baixando o índice de 15% para 10% até 2030.

Grandes grupos privados já colocam a diretriz em prática. A Muyuan Foods, maior produtora de carne suína do mundo e responsável por 6% do mercado global do segmento, reduziu o farelo de soja de 13% para menos de 6% na dieta dos animais.

O ajuste gera economia de 31 quilos de soja e dois dólares por suíno criado. Por se tratar de uma referência industrial na Ásia, o modelo adotado pela empresa orienta o mercado nacional e impacta a demanda pela commodity brasileira.

O plano de modernização inclui a digitalização do campo por meio de plataformas que conectam pequenos pecuaristas a grandes abatedouros. No setor de ovelhas, o governo local aplicou R$ 12 milhões no desenvolvimento de sistemas online para acelerar o fluxo de dados comerciais e otimizar as vendas.

No cenário internacional, Pequim amplia acordos bilaterais no continente africano, que reúne 874 milhões de hectares de terras cultiváveis ainda não exploradas — o equivalente a 65% da reserva mundial.

Apesar do potencial territorial na África, a expansão enfrenta desafios complexos de adaptação cultural, infraestrutura logística e falta de experiência técnica chinesa em agricultura tropical. A estratégia reforça o movimento de Pequim para diversificar suas fontes de suprimento agrícola.