Representantes
da cadeia produtiva da Cachaça lançaram nesta segunda-feira (25/5) o Manifesto
da Cachaça. O documento, assinado por 17 entidades do setor, defende critérios
técnicos para a tributação das bebidas alcoólicas na regulamentação da reforma
tributária.
A
preocupação, segundo as entidades, é com a proposta do Imposto Seletivo e seus
potenciais impactos sobre a cadeia produtiva da cachaça.
O
texto faz um apelo ao Poder Executivo e ao Congresso Nacional para que o
desenho do Imposto Seletivo (IS) preserve
simplicidade, segurança jurídica e coerência com sua finalidade regulatória e
de saúde pública.
O
manifestou lembrou que a proposta originalmente encaminhada pelo Poder
Executivo seguia essa lógica ao combinar uma parte fixa do imposto, calculada
com base na quantidade de álcool puro presente na bebida, com uma parte
proporcional ao valor do produto.
Segundo
o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC), esse modelo originalmente proposto
garante maior equilíbrio tributário entre as diferentes bebidas alcoólicas e
preserva proporcionalidade em relação ao volume de álcool puro.
Na
avaliação do IBRAC, as mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional trouxeram a
possibilidade das alíquotas do Imposto Seletivo serem diferenciadas por
categoria de produto e progressivas em virtude do teor alcoólico.
Segundo
o Instituto, isso cria uma distorção porque o mesmo fator — o álcool presente
na bebida — pode acabar sendo tributado duas vezes por critérios diferentes. A
entidade argumenta que a quantidade de álcool já é considerada na parcela fixa
do imposto, o que tornaria desnecessária uma nova diferenciação adicional na
parcela variável da tributação.
"O
Imposto Seletivo precisa seguir critérios técnicos, transparentes e coerentes
com sua finalidade regulatória. A tributação baseada no volume de álcool puro
já contempla a proporcionalidade necessária entre as bebidas alcoólicas. Na
verdade, uma cobrança ad valorem diferenciada por categoria de bebidas acaba
distorcendo o que é um princípio de tributação ad valorem. Além disso, penaliza
categorias e traz benefícios para outras", afirma, em nota, Carlos Lima,
presidente do Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC),
"O
Imposto Seletivo foi criado para desestimular externalidades negativas. Mas, se
houver essa sobreposição de critérios e diferenciação por categoria, corre o
risco de reproduzir privilégios históricos e aprofundar distorções entre
bebidas alcoólicas. No caso da cachaça, isso pode sacrificar toda uma cadeia
produtiva formada majoritariamente por pequenos e médios produtores",
completa Lima.
Reforma
deve preservar simplicidade e previsibilidade
Segundo
o Manifesto da Cachaça, a criação de múltiplas alíquotas por categoria de
bebida e faixa alcoólica pode aumentar a complexidade do modelo, ampliar
disputas judiciais, gerar insegurança jurídica e dificultar a fiscalização.
"O
Brasil precisa de um modelo simples, transparente e tecnicamente fundamentado,
capaz de garantir eficiência arrecadatória, previsibilidade regulatória e
neutralidade concorrencial", destaca o documento.
O
IBRAC também manifesta preocupação com potenciais impactos sobre pequenos
produtores, especialmente diante de tratamentos tributários distintos entre
categorias de bebidas alcoólicas.
Segundo
a entidade, um pequeno produtor de cachaça com faturamento anual de, por
exemplo, R$ 360 mil pode estar sujeito a uma tributação maior do que um
produtor de cerveja com o mesmo faturamento.
Desigualdades
históricas
Segundo
o manifesto, a proposta em discussão mantém diferenças tributárias entre
categorias de bebidas alcoólicas mesmo diante de padrões de consumo distintos.
Hoje, o brasileiro consome mais de 80 litros per capita de cerveja por ano,
enquanto o consumo de todos os destilados, incluindo a cachaça, é de 4,1 litros
per capita.
Ainda
assim, considerando apenas as alíquotas nominais de IPI, o setor da cachaça
paga cerca de quatro vezes mais impostos do que a cerveja, de acordo com o
manifesto. O documento ressalta ainda que a cerveja representa mais de 90% do
consumo de bebidas alcoólicas no Brasil.
"Se
o objetivo do Imposto Seletivo é reduzir o consumo nocivo de álcool, a
regulamentação precisa seguir critérios técnicos e equilibrados entre as
diferentes bebidas", questiona Carlos Lima.
Aumento
da ilegalidade
O
IBRAC defende ainda que a Reforma Tributária não deve aprofundar distorções
concorrenciais já existentes no mercado de bebidas alcoólicas.
Segundo
o Instituto, parte relevante da informalidade no segmento surgiu após o aumento
expressivo da carga tributária incidente sobre a cachaça e outras bebidas
destiladas em 2015, enquanto outras categorias tiveram redução proporcional de
tributação.
Na
avaliação do IBRAC, manter ou ampliar essas assimetrias pode estimular o
crescimento do mercado informal, do contrabando e da falsificação.
"Experiências anteriores mostram que assimetrias tributárias excessivas
ampliam o diferencial de preços entre produtos formais e ilegais, favorecendo a
informalidade e fortalecendo cadeias clandestinas de produção e
distribuição", afirma Carlos Lima.
Estudo
O
documento menciona estudo publicado na revista científica Substance Use &
Misuse, que apontou que a cerveja representa a maior parcela do consumo de
álcool e está associada à maior parte dos episódios de consumo excessivo nos
países analisados, incluindo o Brasil. Segundo os pesquisadores, políticas
públicas voltadas à redução do consumo de álcool devem considerar
principalmente o impacto das bebidas de maior consumo no mercado.
Outro
levantamento, desenvolvido pelo Observatório Brasileiro do Sistema Tributário
em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG) e o Sindifisco Nacional,
afirma que modelos tributários excessivamente diferenciados entre categorias
podem estimular a substituição de consumo sem reduzir efetivamente o volume
total de álcool consumido.
Números
do setor
Para
ressaltar a importância da produção de cachaça para a economia, o manifesto
destacou que esse setor movimenta mais de 600 mil empregos diretos e indiretos.
Dados do Anuário da Cachaça 2025, do Ministério da Agricultura, mostram que o
Brasil possui 1.266 estabelecimentos produtores registrados em 735 municípios.
Desde 2021, o número de cachaçarias cresceu 35,4%.
O
país também conta com 7.223 produtos de cachaça registrados e 9.532 marcas
cadastradas. Em 2024, a produção declarada alcançou cerca de 292,5 milhões de
litros. Segundo o IBRAC, em 2025, as exportações brasileiras de Cachaça
movimentaram cerca de US$ 17,1 milhões, com presença em 77 países.