O secretário de Fazenda de Mato Grosso, Rogério Gallo, afirmou que a guerra no Irã já acendeu alerta no Estado por causa da pressão sobre o diesel, o frete e o custo de produção agrícola, especialmente do milho segunda safra. Apesar disso, ele minimizou o peso direto das trocas comerciais com o país persa e disse que, neste momento, o principal risco para Mato Grosso vem do efeito sistêmico da alta do petróleo sobre a inflação e a atividade econômica.
No relatório de março, a EIA,
agência de energia dos Estados Unidos, informou que o Brent fechou a US$ 94 por
barril em 9 de março, após disparar com a guerra no Oriente Médio, e projetou
que a cotação deve permanecer acima de US$ 95 nos próximos dois meses. A
própria agência atribui a alta à queda dos embarques pelo Estreito de Ormuz,
rota por onde passa mais de um quarto do comércio marítimo global de petróleo.
“Primeiro que traz impacto na
vida das pessoas, isso acarreta inflação. Nós temos uma economia muito
associada ao transporte rodoviário. E o transporte rodoviário ele é abastecido
substancialmente por óleo diesel. Portanto, isso traz para o Brasil como um
todo impactos inflacionários e, consequentemente, corrosão de renda e de valor
da moeda. Então é um impacto sistêmico. Fazendo um recorte para Mato Grosso, a
nossa preocupação e a gente tá olhando com bastante atenção é o custo de
produção. A gente já teve boa parte da colheita da soja e a nossa preocupação
nesse momento de fato é o custo de produção desse milho um pouco mais adiante,
em função desses preços, porque também são dependentes do óleo diesel para
movimentar as máquinas”, disse Gallo ao Olhar Direto.
Gallo disse que a Sefaz ainda
trata o cenário em nível de monitoramento e que não refez, por enquanto, as
projeções para 2026. Segundo ele, além do impacto nas lavouras, o choque no
combustível tende a ser repassado ao longo da cadeia, pressionando frete,
consumo e arrecadação.
“É repassado porque esse tipo de
produto acaba tendo uma demanda inelástica. O alimento tem que ser
transportado, as pessoas têm que ser transportadas, a economia continua
girando, é um custo que é repassado. E isso é um custo que é repassado em
efeito cascata. Portanto, na Sefaz, nós estamos monitorando e verificando qual
será de fato, quando isso vai se estabilizar, e esperamos que se estabilize no
menor prazo possível para que a gente tenha os menores impactos possíveis na
economia”, afirmou.
Ao tratar do alcance do conflito,
o secretário diferenciou o efeito energético do efeito comercial. Disse que a
relação direta de Mato Grosso com o Irã ainda é pequena e que o Estado seria
muito mais afetado por uma desaceleração em grandes mercados asiáticos do que
por uma ruptura bilateral com Teerã. A avaliação dele dialoga com o peso
estratégico do Estreito de Ormuz para a Ásia: segundo a EIA, 84% do petróleo e
condensado e 83% do GNL que passaram pela rota em 2024 tiveram como destino
mercados asiáticos, com destaque para China, Índia, Japão e Coreia do Sul.
“No caso do Irã, o impacto para
Mato Grosso de modo direto, nossas trocas comerciais com o Irã são muito
pequenas. Nós compramos quase nada deles e, embora eles tenham fertilizantes e
potássio, são trocas comerciais ainda muito incipientes. Na exportação nós
temos em torno de 2% da nossa exportação que foi para o Irã. Basicamente milho
eles compraram de nós, mas um volume muito pequeno também e assim nada que vai
nos impactar. Se fosse uma China, algo que se traduzisse numa crise, numa
guerra na China, em que haveria uma contração de importações por algum período
pela China, isso traria um impacto porque hoje metade das nossas exportações
estão ancoradas na China”, concluiu.