Empresas do ramo relatam perda de faturamento e encolhimento da margem com a interrupção quase total de embarques para os Estados Unidos no período. Falam também de dificuldades para acessar o crédito emergencial anunciado pelo Executivo e de planos de demissões no setor caso o tarifaço permaneça.
"Foram 15 anos de trabalho de qualidade, de continuidade para a construção desse mercado para perdermos tudo por causa de um problema político", lamenta Attilio Leardini, presidente da Leardini Pescados, de Navegantes (SC). A empresa exporta cerca de 60 contêineres de espécies da costa Sul brasileira, como corvina, castanha, gordinho, anchova e tainha, aos EUA por ano. Desde o início do tarifaço, foram enviadas cinco cargas. "O envio ainda foi acordado com o nosso cliente, rachamos o custo do tarifaço, só por uma questão de zerar o estoque e cumprir o compromisso", conta.
O empresário ressalta a importância dos EUA para a rentabilidade dos negócios. As companhias brasileiras produzem cortes específicos para atender os americanos. Sem o mercado europeu desde 2017 e com o fluxo aos americanos pressionado pela sobretaxa de 50%, "o setor ficou à deriva", diz Leardini.
"Estamos na mão de mercados que só compram commodities, o peixe inteiro, de baixo valor agregado", afirma. A produção foi redirecionada para destinos menos rentáveis desde então, como África e Ásia, e houve impacto no lucro.
Segundo ele, a concorrência já aumentou e que cada dia fora do mercado americano aumenta a dificuldade para retomar a clientela. "Infelizmente perdemos esse mercado enquanto a Argentina e o Uruguai voltaram a trabalhar com os EUA com preços inferiores aos nossos", relata.
A Cais do Atlântico, empresa com sede em Laguna (SC), viu o faturamento encolher 20% com o tarifaço americano. "Destinamos a produção para outros locais, mas a margem é muito inferior. Isso afetou praticamente 50% da margem de contribuição do negócio como um todo. Os itens que eu tinha de maior relevância eram para os Estados Unidos", diz Jean Gonçalves, sócio-diretor da empresa.
Segundo ele, está no radar um corte de funcionários que trabalhavam em linhas de produção específicas para os EUA.