As exportações de carne de frango
do Brasil em março caminham para terminar o mês com um volume acima do total
registrado no mesmo período do ano passado, apesar da guerra no Golfo Pérsico,
disse o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) à
Reuters.
Segundo Ricardo Santin, o setor
está conseguindo alternativas para desembarcar o produto na região afetada pelo
conflito — onde estão alguns dos principais importadores — ou desviando cargas
para outros destinos.
"Se olhar a média (de
exportação) diária do mês de março
está acenando que a gente consegue fazer um pouco mais em relação a março do ano passado", disse
Santin, presidente da associação que reúne empresas como MBRF e Seara, da JBS.
Ele disse que os volumes de
março, segundo dados da associação — que tem acesso a números de embarques
totais, não apenas da carne in natura –, "acenam" para serem
superiores ao total de 476 mil toneladas de março do ano passado.
Com o Estreito de Ormuz
praticamente fechado devido à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã,
as exportações de carne de frango brasileira estão chegando ao Oriente Médio
via Mar Vermelho, enquanto alguns navios acessam a área pelo Canal de Suez.
O Oriente Médio recebeu cerca de
30% da carne de frango exportada em 2025 pelo país, o maior exportador global
da proteína, de acordo com levantamento da consultoria Datagro, que vê o
produto como um dos mais expostos a riscos pelo conflito entre todas as
exportações agropecuárias do Brasil.
Mas as empresas exportadoras têm
sido muito "resilientes", conseguindo realizar boa parte das entregas
por outras rotas, disse Santin.
"Começaram a criar
alternativas. O Iraque é atendido via Turquia; o Catar e os Emirados Árabes
Unidos podem buscar o produto na Arábia Saudita. Tem alternativa de Omã
e um porto no próprio
Emirados Árabes que fica antes do Estreito de
Ormuz", afirmou o presidente da ABPA.
Ele explicou que as empresas
também têm se valido de rotas rodoviárias para transportar o produto até os
destinos finais, após o desembarque nos portos alternativos, o que colabora
para elevar custos, conforme já tinham comentado executivos da MBRF e da JBS.
No ano passado, os Emirados
Árabes Unidos foram os maiores compradores da carne de frango do Brasil,
enquanto a Arábia Saudita foi o terceiro importador, conforme dados da ABPA.
Entre outros importantes destinos no Oriente Médio estão o Iraque (11º importador),
Catar (16º), Omã (18º), Jordânia (21º), Iêmen (22º) e o Barein (32º).
"São alternativas que
demoram mais, são mais custosas", disse Santin, sobre as outras rotas que
as companhias estão adotando para viabilizar as exportações. "Mas
inclusive eles estão comprando mais, quando eles acham uma maneira de transportar,
os pedidos ficam até maiores."
Santin disse ainda que parte dos
importadores aceita pagar parte dos custos maiores, já que eles buscam manter
seus estoques em um ambiente de guerra.
"Tem a chamada taxa de
guerra
tem uma série
de custos que estão sendo negociados nas cargas
novas. Mas o primeiro ponto que olhamos com o setor é
tentar manter a entrega, sendo possível e o
cliente aceitando pagar, estamos fazendo a entrega", afirmou.
O dirigente da ABPA disse que
houve uma evolução na logística de transporte em relação ao início da guerra,
quando as opções do Canal Suez e do Mar Vermelho ficaram momentaneamente
fechadas.
"A cadeia está conseguindo
resistir, está absorvendo parte do custo, e uma parte está sendo dividida com o
importador", disse Santin, citando o aumento do combustível pela alta do
petróleo e custos com armazenamento e transporte dos contêineres.
O presidente da ABPA disse não
ter informação se todo o fluxo previsto para março para o Oriente Médio está
sendo mantido com as alternativas logísticas, ou se o setor redirecionou parte
dos embarques para outros destinos fora da região do conflito.
Mas disse que, com as exportações
caminhando para um crescimento em março, não está sobrando frango no mercado
interno.
Havia preocupações da indústria
de que, se o Brasil não conseguisse exportar os volumes previstos por conta da
guerra, haveria pressão sobre os preços.